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22 de Maio de 2026
Estivemos à conversa com o autor famalicense Duarte Oliveira
No dia 22 de maio de 2026 celebra-se o Dia do Autor Português e, para assinalar a data, estivemos à conversa com o autor famalicense de 27 anos, Duarte Oliveira.

Em 2023, lançou o livro infantil “Alguém aceita a Pica”, uma história que explora as falhas da vida e a importância da amizade. Já em 2025, publicou “A coragem de sair da fila”, uma viagem ao centro das relações humanas, que reflete sobre os princípios essenciais da gestão e relembra que o verdadeiro sucesso nasce quando nos sentimos parte de algo maior.

Leia, a seguir, a entrevista completa.


Antes de falarmos dos livros, quem eras tu antes de começares a escrever?
“Na verdade, acho que não mudou muita coisa desde que lancei o primeiro livro até agora, porque a pessoa não muda apenas por escrever um livro e ele ser lançado. Continuas a falar para as pessoas de quem gostas e, por isso, acho que não mudou muita coisa desde então.”


Lembras-te do momento em que pensaste “ok, vou mesmo publicar o meu livro”?
“Lembro-me porque foi uma situação caricata. O primeiro livro foi para participar num concurso e então eu acabo por perder. Depois pensei que já não iria publicar o livro, mas acabou, na mesma, por ser publicado, porque a editora, na altura, mandou-me um e-mail a dizer que tinha gostado do livro e queria lançá-lo na mesma.
Então, quando eu recebo aquele e-mail e percebo efetivamente que vou lançar o livro, foi algo… fiquei em choque, digamos assim. Mas foi algo bom, porque algo meu, e algo que sempre foi tão meu — que é a escrita e que vem desde a infância — iria ser passado aos outros e iria, pela primeira vez, mostrar, de uma forma mais abrangente, essa qualidade, digamos assim, que tenho.”


Tens dois livros já publicados – qual deles sentes que te representa mais hoje?
“Totalmente o segundo. O primeiro é infantil, mas o segundo — é muito difícil de perceber isto — posso dizer que descreve totalmente a minha vida. É uma metáfora que muita gente não vai entender, a maioria das coisas e como é que isso pode descrever uma vida, mas o segundo é totalmente a descrição da minha vida, principalmente nos últimos anos.”


O que é que mudou entre o primeiro e o segundo? Na escrita e em ti.
“Tudo. Na escrita, essencialmente, porque o primeiro é infantil. O primeiro não era suposto ser publicado, ou seja, foi mesmo para participar no concurso e foi com esse objetivo. O segundo, não. O segundo já foi muito virado para mim, muito virado para as minhas vivências, para passar aquilo que fui aprendendo ao longo da vida.
Então, mudou muita coisa na escrita e naquilo que tento passar nesse segundo livro relativamente ao primeiro.”


E há alguma ideia ou emoção que atravessa os dois livros apesar de serem diferentes?
“Talvez a importância da amizade. Tanto no primeiro, onde a Pica, que é a personagem principal, é sempre acompanhada pelos seus colegas, como no segundo, a 1003 também é sempre acompanhada pelos seus dois amigos ao longo da história.
Por isso, penso que a amizade é uma das coisas mais importantes e que tento passar sempre nos livros.”


Escreves mais por necessidade ou por disciplina? E há algum momento do dia em que gostes mais de o fazer?
“Totalmente por necessidade. Para mim, escrever é quase terapêutico. Eu uso isso principalmente em fases em que estou mais em baixo, em fases em que sinto mais ansiedade, tenho que tomar decisões e assim, porque me ajuda a desmaterializar aquela ideia e aquilo que me está a gerar ansiedade.
Então, passo para o caderno, passo para o computador, para onde seja, e acabo por tornar aquele pensamento mais leve, porque ficou ali, e ajuda muito nessa parte.
E, também, a fase do dia em que tenho mais tempo para isso é mesmo à noite, antes de dormir. É a fase do dia em que escrevo mais, também porque, lá está, até para adormecer um bocado mais leve.”


Qual foi a decisão mais difícil que tiveste de tomar enquanto escrevias?
“Não sei se tive alguma decisão mais difícil. Provavelmente, a decisão mais difícil, nesta publicação dos dois livros, foi mesmo lançar o segundo.
Se bem que, como é muito metafórico, como é algo muito superficial e é muito difícil de entender o que está por trás daquele livro, a história e porque é que eu escrevo aquilo, depois não me custou tanto. Porque, inicialmente, estava-me a custar passar algo tão pessoal para as pessoas, mas depois consegui convertê-lo em algo tão abrangente que cada pessoa interpreta à sua maneira.
Então, foi muito mais simples e, por isso, acaba por não ser nada complicado.”


Há alguma parte que quase não entrou no livro, mas agora não consegues imaginar sem ela por ter sido essencial?
“Que eu me lembre, não. Houve apenas um excerto que utilizo no segundo livro para reforçar a importância das pessoas mais velhas na sociedade e nas organizações. Foi a última parte que acrescentei ao livro, já estava mesmo em fase de revisão e achei que fazia todo o sentido, apesar de inicialmente nem ser para entrar.
Mas sim, acrescentei-a ao livro e foi algo que senti que fazia sentido, e por isso é que escrevi. Mas, de resto, não há uma parte de que eu me tenha lembrado e que tenha mudado totalmente à última da hora.”


E sentes que, nos teus livros, há uma mistura entre a tua vida pessoal e a ficção?
“Acho que as duas se vão cruzando, principalmente no segundo. O primeiro é uma história infantil, mas o segundo vai cruzando aquilo que aprendi ao longo da vida com muita ficção, também para tentar jogar com essa metáfora que estava a criar com as formigas e com toda a sociedade à volta da comunidade das formigas.
Por isso, o livro vai jogando sempre entre a ficção e a parte real. É claro que cada pessoa, tal como já disse, interpreta à sua maneira.”


E já te sentiste alguma vez exposto por alguma coisa que escreveste?
“Não. Lá está, era um dos meus medos inicialmente com o segundo livro, mas depois, como consegui passar a mensagem de forma tão leve e tão superficial, acabei por não me sentir exposto, porque as pessoas acabam por não entender ao certo de onde vem aquilo.
É claro que as pessoas que me conhecem melhor percebem cada frase, cada excerto, e porque é que eu digo aquilo. De resto, os restantes leitores conseguem interpretar à sua forma e também, se calhar, olhar para a sua vida e ver onde é que aquilo se enquadra.
E assim consegui um bocado salvaguardar as pessoas que estão à minha volta.”


As pessoas mais próximas reconhecem-te nas tuas personagens?
“Sim, sim. Porque há personagens e há determinados momentos em que eu me enquadro com cada uma das personagens, momentos da minha vida. Penso que as pessoas souberam perceber onde é que eu me enquadrava, em cada fase da minha vida, nas personagens.”


Qual foi a sensação na primeira vez que alguém que tu não conhecias falou dos teus livros?
“Foi curioso. Foi na Feira do Livro do Porto, numa sessão de autógrafos. Depois compraram o livro e, no final, recebi uma mensagem no Instagram a dizer que tinham gostado muito do livro, que a fez pensar bastante no percurso que estava a seguir, a ver se estava a tomar as decisões certas, e que quase que lhe moldou, ou a fez repensar tudo aquilo que estava a viver, e também ajudou a tomar uma decisão importante.
Acabei por nunca perceber o que era, mas achei aquilo espetacular, porque o livro teve impacto na pessoa, nesse caso concreto.”


Agora com 26 anos, sentiste que a idade foi uma vantagem ou um obstáculo para lançares um livro?
“Acho que não teve impacto, na verdade. É claro que, se calhar, até é bom ser uma pessoa tão jovem a lançar um livro, mas depois acaba por ser outro autor e acho que as pessoas nem ligam muito à idade.
Mas sim, comecei cedo, tenho noção disso.”


E derivado à idade, achaste que não te levavam a sério?
“Não. Esse nunca foi um dos meus pensamentos, nem nunca me passaram isso, porque, lá está, o feedback que fui obtendo era bom e acho que nunca ninguém julgou os livros pela idade de quem os escrevia, mas sim pelo conteúdo.”


Se tivesses que apagar alguma página ou alguma parte de algum livro, apagarias?
“Não. Manteria tudo.”


Se o teu livro fosse uma conversa, quem estaria à mesa nessa conversa?
“Acho que quase todas as pessoas que foram passando pela minha vida, porque acho que fui buscar um bocadinho a todas. Então, os livros acabam por abarcar tudo isso que fui vivendo com as várias pessoas que se foram cruzando comigo ao longo da vida, tanto profissionalmente como pessoalmente.”


Se pudesses conversar com uma versão de ti antes de lançares o primeiro livro, o que lhe dirias?
“Nunca tive medo de dar o passo, sempre quis lançar um livro, sempre gostei. Por isso, lá está: aproveitar, aproveitar, aproveitar o momento. Diria apenas para aproveitar, porque, independentemente das pessoas gostarem ou não gostarem, é uma coisa tua — neste caso, é uma coisa minha — que foi passada para os outros e que teve impacto.
Mesmo que as pessoas não gostem, criaste algo teu, ou seja, vai servir para o teu legado. E isso, por si só, é bom. Então, aproveitar o momento e aproveitar a etapa.”


Quando começaste a escrever as primeiras frases, as primeiras páginas, achaste que algum dia seria possível chegar a um livro?
“No primeiro, eu queria chegar ao livro. Depois, quando perdi aquele concurso de que já falei, se calhar percebi que não faria sentido, que não tinha assim tanto jeito. E quando eles me contactam novamente a querer que eu lançasse, percebi que afinal tinha ali algum jeito.
O segundo, quando começo a escrever, por ser algo tão marcante, tão significativo para mim, achei sempre que ele iria chegar ao livro, porque alguma editora iria querer lançá-lo. Por isso foi algo normal para mim e achei mesmo que iria despoletar na publicação.”


Há alguma parte em algum dos livros que as pessoas ao lerem interpretem mal a tua mensagem ou onde querias chegar?
“Acho que não há forma de interpretar mal. Mesmo eu não quero que as pessoas interpretem pela forma que eu queria, que eu escrevi, ou seja, pelo que eu quis ou pelo significado que tinha para mim. Quero que as pessoas interpretem à sua forma, com base nas suas vivências, nos seus caminhos, nas suas escolhas, porque acho que cada pessoa vai interpretar de maneira diferente.
E isso é uma das coisas boas que sinto que tem o meu segundo livro: é algo muito relativo e que, de pessoa para pessoa, muda, e que cada uma pode tirar os seus ensinamentos e tomar decisões e redefinir o rumo da sua vida, consoante o que lá está escrito.”


O que é que ainda queres provar a ti próprio?
“Nunca escrevi com o objetivo de ser vendido, ou de ser um autor falado. Escrevi porque gostava e, a partir do momento em que gostava, tentei publicar. Depois, chegar às outras pessoas foi um pormenor.”


Que conselho darias a alguém da tua idade e que tenha um sonho de publicar um livro?
“Muito simples: escrever, escrever e enviar para uma editora, e depois o processo decorre normalmente, sem ter muitas dúvidas. Vai-se fazendo. Se gosta de escrever, escreva, mesmo que não chegue a nenhum lado, que nenhuma editora pegue naquilo. Ao menos escreveu para si, pode apresentar à família o que escreveu, e isso é sempre bom.
Como eu disse, é terapêutico, ajuda, serve para nos libertar a ansiedade muitas vezes. Que nunca escrevam com o objetivo de serem famosos ou de chegar a alguém; escrevam para si, essencialmente, e depois tudo o resto vem por acréscimo.”


Que pergunta gostarias que te fizessem numa entrevista mas nunca fazem?
“Não sei, é complicado. Ou seja, eu não costumo ir para as entrevistas muito preparado, por isso não vou preparado para uma certa pergunta. Nunca questionei isso, ou o que é que me poderiam perguntar, porque acho que, se fosse preparado, iria chegar lá e iria ser um bocado monótono, um bocado falso ou falseado, neste caso.
Por isso, nunca pensei numa pergunta que já me deveriam ter perguntado e nunca perguntaram.”
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